Nasci e me criei para o futebol indo ver treinos e jogos do Cruzeiro, na Montanha. Acompanhei o meu velho pai nos jogos do estrelado, da Colina Melancólica ao Estrelão. Muito ouvi aquelas histórias do passado, dos anos 30, 40, das vitórias sobre o Rolo Compressor, das excursões à Europa, do Flamini e Lombardini. Foi indo aos jogos do Cruzeiro que o meu velho me ensinou a observar o todo, ao não dar tanto valor ao jogador enfeitado e a identificar quem é quem.
Ao final, ele lá pelos 80 e tantos, eu o levava. Falávamos sobre os velhos tempos. Ele dizia que estava indo de teimoso. Queria que acontecesse, mas não acreditava que tivéssemos força prá subir de novo. Passei também a duvidar, muito contrariado. Nas finais da segundona, sempre perdíamos para a capacidade dos demais de se reforçarem, com o auxílio das comunidades e das prefeituras. Nós, só com a nossa vontade.
Em 2007 o velho se foi prá outras paragens, com 94 anos, exatamente no dia 14 de julho, data de fundação do nosso querido alvi-azul. Levou junto a camiseta que lhe emprestei e o fez tanto feliz.
Quando vi o empate salvador de Bagé, um 0x0 típico, jogo de macho, gauchão puro, contra Darzone e companhia, comecei a achar que era a hora. Gurizada forte, de pegada, de bom toque, de ambição. Senti que a vontade era inquebrantável. Prá quem conhece o turfe e a linguagem típica do esporte, todos eram como "cavalo indócil no partidor", "louco prá soltar as patas".
Comecei então a pedir que o velho, lá de cima, ajudasse um pouquinho. Prá quem acredita nessas coisas, como eu, arrepia ver o resultado.
Hoje era o dia, soube ao meio-dia. Pensei que era na quinta.
Arranjei um tempo, depois de resolver uns particulares e me fui. Cruzeiro e Brasil de Farroupilha. Ganhando, já dava. Chorei um pouco, confesso, e pedi prá que, diferente de outras vezes, tudo se resolvesse rápido e sem sofrimento. Como nunca foi com o Cruzeiro. Fui prá trás da goleira onde ficávamos, o velho e eu, e fiquei todo o tempo falando com ele. Se tivesse alguém perto, me internava direto. Lá fizemos os 3x0.
Foi tudo como combinado, mas só no primeiro tempo.
No sufoco do segundo, com o 3x1 mudei de lado de novo, de ataque prá defesa, voltando ao velho lugarzito e à conversa de pé de orelha com o pai. E veio o 3x2. Eu só pedia prá ele se postar de zagueiro e ajudar a empurrar os ponteiros do relógio. E ele fez as duas coisas. Tenho certeza.
Apito final e me fui pro campo, abracei quem eu via pela frente. Atolei os sapatos no barro até os canos, sapatos que ficarão guardados como troféu assim como estão agora, com uma placa comemorativa que vou mandar fazer. Depois de 32 anos, um 3x2. Tudo a ver. Como na despedida do Estádio da Montanha, um 3x2 contra o Liverpool de Montevideo. Eu também lá estava.
Todo o tempo da comemoração, só fazia uma pegunta ao meu velho parceiro de jornadas: "prá que tanto sofrimento de novo?" "e a nossa combinação?"
Tive a nítida impressão que via ele me dizendo, meio brincando: "tá pensando que torce pro Real Madrid?"
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