terça-feira, 29 de setembro de 2009

Falso dilema dos esquemas

Acho muita graça quando se pergunta a um treinador de futebol qual o seu esquema preferido. E mais graça ainda quando respondem, optando por um deles.


Na verdade, a resposta correta seria dizer que todos os esquemas de jogo tem o seu lugar e momento, em todas as equipes, dependendo de possibilidades de plantel (num cenário mais estático) e de circunstâncias pontuais (num cenário de jogo).


Assim, se tenho no meu elenco somente alas (poder de marcação baixo e bom apoio), o ideal poderá ser a adoção, para início de um jogo, do 3-5-2 ou 3-6-1. Se tiver bons marcadores, talvez venham a calhar o 4-4-2, o 4-3-3 ou, como variantes, um 4-4-1-1 ou 4-3-2-1 ou outro qualquer, dependendo da necessidade de incremento de articuladores ou de atacantes e das possibilidades do grupo.


Assim, é óbvio que o que comanda a opção não deve ser a predileção do treinador, mas a disponibilidade dos recursos humanos que possui para a partida.


A pergunta usualmente feita, e a resposta normalmente dada, revelam, antes de mais nada, como é carente o meio futebolístico de inovações táticas e como é estática a atuação, em campo de jogo, dos treinadores e próprios atletas.


Em mais de 100 anos do esporte vivenciamos, a rigor, o 2-3-5, o WM, o 4-2-4, o 4-3-3, afora os hoje tão badalados 3-5-2 e 4-4-2.


Contudo, a única grande revolução de fato vivida no esporte deu-se com Rinus Michels, nos anos 70, treinador do Ajax e comandante da famosa Laranja Mecânica, a seleção holandesa, vice-campeã da Copa de 1974, disputada na Alemanha.


Esta equipe, formada por grandes jogadores e de inteligência acima da média (Cruyff, Neeskens, Krol, Repp, Resembrink, principalmente) tinha a capacidade de variar esquemas com o jogo em andamento, numa movimentação alucinante, recorrendo, de surpresa, em determinados momentos da partida, à pressão e meia-pressão, deixando seus adversários sem saber o que fazer.


Não sei bem por qual razão nunca mais vi alguma tentativa nesse sentido.


Ao invés disto, ouço que "o grupo está coeso, unido", "demonstramos atitude", "nossa vontade de vencer é grande", "nosso moral está alto" e outras preciosidades.


Ficam as indagações.


Por que motivos não se ensaia a mudança de sistemas, no jogo, sem a utilização da regra 3?


Por que não se utilizam as pré-temporadas para treinar essas inovações táticas?


Com a evolução da preparação física e o avanço tecnológico da medicina do esporte, não se torna mais fácil surpreender um adversário com 2 ou 3 séries de 5 minutos de marcação sob pressão, como se faz no basquete em alguns momentos decisivos?


Por que razão sinto tanta inveja da evolução tática de outros esportes como o basquete, o voleibol, o handebol, o futsal, o futebol americano?

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