Em outro post anterior, comentei um pouco sobre achar que, na maior parte das vezes, no Brasil, nossos técnicos de futebol não passam de motivadores muito bem remunerados. De modo geral, é o que se vê. Não é por outra razão que se dá tanta importância à chamada "vivência de vestiário", o que, trocado em miúdos, quer dizer, privilegiar malandragem, picardia, esperteza e tantos outros adjetivos ao aspecto do conhecimento técnico e tático.
Lembro-me que, tempos atrás, o Felipão (Scolari), ao sair do Grêmio para o Palmeiras, disse, alto e bom som, que sua retirada se dava porque o seu discurso não tinha mais eco no vestiário. Eco que não se esgota nunca, parece, em se tratando de Sir Alex Ferguson, no Manchester United. Muito provavelmente porque o velho coach não faz da motivação de seu time a sua principal estratégia de ação.
Joel Santana, se não me equivoco, já quando investido treinador da seleção da África do Sul, deu entrevista dizendo que era difícil "dar o recado" aos atletas, em razão da dificuldade do intérprete traduzir o aspecto motivacional. Aliás, a mesma razão atribuída por alguns à prematura saída de Luiz Felipe do Chelsea, onde não chegou a formar a "Família Scolari".
Nesse contexto, imperam os vídeos motivacionais, com a reprodução de cenas de épicas batalhas ou dos enfrentamentos do Rocky Balboa, com musiquinha e tudo, às vezes substituída pelo "tan-tan-tan..., do Senna" ou embalada pelo aúdio de um choro convulsivo dos familiares dos jogadores ou torcedores humildes, implorando pela vitória.
Some-se a isto o desinteresse da imprensa especializada pelas questões táticas e técnicas - já que mais voltada, também, a falar de aspectos anímicos e de fatores extra-campo - e o que se tem são entrevistas coletivas pós-jogo que sequer tocam nas questões que efetivamente fizeram a diferença no caso concreto.
E aí, não havendo o que dizer para explicar uma derrota, ou "sobra" para o trio de arbitragem, ou se lamentam as eventuais dificuldades financeiras ou se atribui o insucesso ao azar. Pior, ainda, quando quem ganhou não sabe o porquê da vitória, invocando apenas a garra, a vontade, a motivação, o desejo de vencer, a união do grupo e outros acessórios ingredientes.
Ora, tenham a santa paciência!
Será que do outro lado também não se tinha o mesmo desejo e os mesmos ingredientes?
2 comentários:
Ilustre Paulo, parabéns pela iniciativa. Aproveitando-a, venho tentar dar alguma contribuição. Não me cingirei ao tema exposto, avançarei noutras áreas, para que o expert dê sua abalizada opinião.
1) Quanto aos "técnicos":
Não sei se é só no Brasil, mas me causa certo espanto, ao lado de uma visceral contrariedade, que esses comandantes sejam, quase sempre, meramente ex-jogadores. E isso não só no futebol, mas em praticamente todas as modalidades. Nada contra ex-atletas virarem técnicos. Afinal, espera-se que a experiência ajude-os na nova empreitada. Todavia: a) nada impede que uma pessoa que não tenha tido essa trajetória possa ter conhecimentos maiores que muitos desses jogadores aposentados; b) vários (quiçá a esmagadora maioria) desses ex- atletas que se alçam a técnicos tem conhecimentos técnicos e táticos sobre seu esporte quase nulos. Muitos não tem qualquer titulação, não são formados em educação física ou alguma ciência afim. Grande parte não fez qualquer curso para técnico ou, quando o fizeram, seguidamente foi algum cursinho caça-níquel, dado "em cima da perna", em prazo exíguo e com conteúdo pífio. Debilidades essas potencializadas pela extrema incultura geral de grande parte desse pessoal... Já não é de hoje que os clubes mais abonados (e até os nem tanto) constituem equipes multidisciplinares nos esportes praticados: há médicos, fisiologistas, fisioterapeutas, dentistas, psicólogos, assistentes sociais, nutricionistas, etc, vários inclusive com mestrado e doutorado. Porque, em relação ao técnico, o qual, de certa forma, comanda todo esse processo, não vigem tais exigências? De minha parte, gostaria que meu glorioso Inter tivesse um técnico com soberbo conhecimento de futebol, mestrado ou doutorado em áreas correlatas, sólida cultura geral...E a quem fosse dado prazo longo para trabalhar, quatro, cinco anos, no mínimo. Havendo conciliação entre as correntes internas, para que ele pudesse atravessar duas ou três gestões incólume. Pois isso viria ao encontro das mais lídimas aspirações do clube. De outro lado, fico pensando: porque não importar um bom técnico estrangeiro, de quando em vez, para mudar os paradigmas da aldeia? Não me venham com desculpas econômico- financeiras: tanto Grêmio como Inter são useiros e vezeiros em contratar pernas-de-pau e pagar-lhes salários polpudos.
2) Sistemas táticos: sou um ofensivista... Embora entenda que, dependendo do andar de uma partida, exija-se mudança eventual de postura.
Diante disso, pergunto: porque relegaram o 4-3-3 e o 4-2-4 ao lixo da história? Será que são tão ineficientes assim? Será que chegamos ao fim da história? E que o 4-4-2, 3-5-2, 3-6-1, e qualquer dia, não duvido de mais nada, o 9-1, venceram inapelavelmente? Ou será apenas reflexo de técnicos extremamente mal preparados?
Aliás, o despreparo não é só de técnicos, a imprensa dita especializada muitas vezes também peca demasiadamente, possuindo conhecimentos epidérmicos sobre os temas. Igualmente, os jogadores: eles, que são (ou deveriam ser) partícipes ativos da mecânica de jogo pensada por seu comandante, não possuem qualquer embasamento teórico sobre questões táticas. Isso poderia ser passado desde as escolinhas, com aulas, análise de jogos, etc. Isso habilitaria o jogador a mudar sua postura em campo, dependendo do momento, por si mesmo, facilitando a tarefa do coach.
3) Porque os jornalista esportivos não podem declarar suas paixões clubísticas? Certamente, as tem. Suas manifestações ficariam muito mais honestas, autênticas, e o público não seria iludido com matérias pretensamente isentas. Isso não lhes tiraria qualquer credibil.idade, ao contrário. De outro lado, não precisariam fazer , só por declarar tal opção, um jornalismo de torcedor (estilo Paulo Santana ou Kenny Braga).
São devaneios de um interessado por futebol que, embora não possua os conhecimentos de Vossa Excelência, tenta buscar respostas e caminhos para o nobre esporte bretão em terras tupiniquins.
Abraço.
Antônio
Grande Antônio!
Em primeiro lugar, fico sensibilizado pela visita ao humilde blog do velho amigo aqui. E pela adjetivação positiva, própria da generosidade que dedicas aos teus amigos, principalmente aos velhos amigos.
Quanto às tuas colocações, são tantas e tão qualificadas que me fazem vir à mente um roteiro contendo alguns posts, que pretendo veicular tão logo seja possível. Vamos trocar idéias sobre isto, sim.
Acho que algo que movimenta tantos recursos e move tantas paixões, como o futebol, merece um tratamento mais profissional. E aqui, no Brasil, são poucas as demonstrações desse profissionalismo que seria de se exigir.
Um grande abraço e vamos voltar a falar.
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